Editoriais

As lições de 2021

Pixabay

Juan E. Notaro
Presidente Executivo do FONPLATA – Banco de Desenvolvimento

No final de 2020, escrevi nestas páginas que o futuro que prevíramos no início daquele ano não seria mais como havíamos antecipado. A pandemia veio para colocar à prova os sistemas de saúde, as economias e a solidariedade em todo o mundo.

O ano de 2021 será lembrado como aquele em que, por causa da pandemia, as diferenças entre os países industrializados e o mundo em desenvolvimento se tornaram ainda mais evidentes. Enquanto nos primeiros há vacinas em abundância para toda a população, na América Latina, os avanços começaram a ser notados apenas em meados deste ano.

O desafio para o mundo continua sendo buscar uma distribuição mais justa de recursos e medidas de proteção, especialmente quando a pandemia começa a desaparecer das manchetes, mas não do cotidiano de muitas pessoas.

Talvez o aspecto positivo da pandemia seja ter-nos feito perceber a necessidade de respostas globais a problemas que nos afetam como espécie, para além de países, fronteiras e ideologias. O principal problema, sem dúvida, é a mudança climática.

Escrevo estas linhas enquanto se fazem os últimos retoques à declaração final da COP26, a cúpula do clima das Nações Unidas, em que se buscaram acordos para garantir a sobrevivência do planeta, mas que não esteve à altura das expectativas.

A COP26, no entanto, ocorre num ano muito marcado por essa consciência da necessidade de ação coletiva e corajosa para se adaptar aos efeitos das mudanças climáticas e evitar que a temperatura média do planeta suba mais de 1,5 °C.

No início do ano escrevi, por exemplo, que fornecer água potável aos 8,6 bilhões de pessoas que seremos em 2030 é um desafio que exige a proteção das fontes, além de infraestruturas que resistam adequadamente aos efeitos de eventos climáticos cada vez mais frequentes e devastadores.

Iniciativas como Instituições Financeiras para Ação Climática buscam, precisamente, que essas necessidades de desenvolvimento tenham os mecanismos de financiamento adequados para que as ameaças da mudança do clima sejam levadas em conta em todos os aspectos do negócio financeiro.

O que é interessante e atraente nessa proposta é que investir com o olhar voltado para a  mudança climática não é apenas eticamente correto, mas também é um bom negócio, além de uma maneira de avançar na correção das desigualdades que a pandemia exacerbou.

O ano de 2021 também nos ensinou que o teletrabalho veio para ficar e isso requer mudanças em termos de gestão de recursos humanos, mas também em termos de aproveitar o enorme potencial dos jovens, além do difícil desafio de superar a brecha digital entre homens e mulheres, especialmente as mais vulneráveis.

Apesar de tudo que ainda há por fazer e dos obstáculos que devem ser enfrentados para consegui-lo, acredito que 2021 foi um ano que deu origem a um otimismo moderado. Há uma consciência crescente dos problemas que devemos enfrentar globalmente e muita gente trabalhando nesse sentido.

Eu diria que a principal lição que fica é que desafios como a pandemia e as mudanças climáticas afetam a todos nós e exigem um esforço coordenado (ou pelo menos mais coordenado do que até agora) para lidar com eles de forma efetiva.

Outra lição importante é que é possível mudar de perspectiva. As finanças verdes, por exemplo, até recentemente um sonho de poucos, são hoje uma combinação de sustentabilidade e retornos atraentes, e continuarão assim.

Finalmente, nos deixa a lição de que há outras formas de trabalhar e viver. E que instituições, empresas e governos terão que se adaptar a elas para reter talentos e sobreviver no longo prazo.

Penso que não é um saldo ruim para um ano que começou em meio à incerteza, quando mal se avistavam as primeiras medidas contra a pandemia, e com pouca clareza sobre o futuro econômico de muitas nações.

Só espero que assimilemos essas lições, e que elas sirvam de base para continuarmos aprendendo, e que em 2022 possamos passar do otimismo moderado de hoje para o otimismo puro e simples. Que assim seja.

Texto publicado originalmente na coluna mensal de Juan E. Notaro no Huffington Post.

Localização